segunda-feira, 4 de maio de 2009

Enquadramento

Em 1838 Stendhal utiliza o termo francês “touriste” para designar o viajante, o protagonista do Grand Tour, em voga na aristocracia da época cuja principal finalidade era ampliar a formação do jovem por via dos prazeres sensuais proporcionados pela viagem. Este rito de passagem revelava ao jovem turista não só a geografia clássica de uma Europa culta como também os confins do mundo com populações insólitas e paisagens fabulosas como testemunhos da origem mitológica do mundo, fomentando a lenda popular, o conto infantil, o diário de viagem. Esse elemento onírico do “exotismo” serviu como contraponto a uma civilização industrializada, no seio da qual ocorreram transformações relevantes tanto na história do trabalho como na história do lazer, termos que, de resto, são indissociáveis. Como tal, as actividades de lazer obedecem a um preceito social que desde logo as distinguiu em práticas enriquecedoras com vista a um progresso pessoal (de que a tour é expressão ritualizada) e as distracções consideradas pouco respeitáveis, como os prazeres efémeros proporcionados, por exemplo, pelo sol e pelo mar. Esse otium cum dignitate, exclusivo às elites, vê-se ameaçado com a emergente massificação do lazer facultada com os caminhos-de-ferro e um sistema laboral que licencia a classe proletária a revigorar forças com a “mudança de ares”. Este enquadramento terapêutico do tempo-livre e a vulgarização da viagem (em particular o caminho de ferro) conduz à invenção e popularização da praia, primeiro como instância medicinal em moda e posteriormente como lugar de recreio, proporcionando um lazer sensual, erotizado, transformando o banhista e o viajante numa criatura lúdica e turística, agora preocupado com a construção e encenação duma identidade proporcionada por essa liberdade licenciosa durante o tempo livre, sobretudo, as férias. “Lazer” (do latim licere, ser lícito, permitido) é já por si expressão de uma legitimação condigna do farniente, positivando o tempo morto em tempo livre, ao contrário do otium, que assume a expressão da condenação ao tédio, ao peso das horas, ao tempo-morto. A liberdade licenciosa de outrora, vinculada aos calendários rural e religioso, é redefinida em função de um mundo industrializado. Deslocada para o Verão, esta liberdade licenciosa, assume uma condição edénica, em que o trabalhador se reencontra com o seu corpo, se torna dono do tempo, regressa aos lugares de identidade (a aldeia, a casa de campo, a família, a mãe-natureza, os monumentos fundadores), tudo isso escrupulosamente ritualizado com a partida da viagem, encenando o abandono físico deste mundo para um outro que tem a função simbólica do paraíso esquecido. As utopias sociais – sonho racional da modernidade – revelam uma aspiração colectiva à vida boa, evocando imagens de um estado de graça na terra, que rapidamente se vê pervertida pelos anátemas do progresso. A mecanização do trabalho e a invenção do subúrbio industrial, por exemplo, resultam numa imagem paródica e simultaneamente tenebrosa desse sonho original do paraíso, paraíso esse que a nova ordem desloca para as esferas do tempo livre e das férias e, por conseguinte, para uma emergente indústria do turismo. Se pelo trabalho e pela vocação o homem encontra a possibilidade de se definir moralmente, através de um esforço ascético no interior da sociedade, na vida laica, onde o sucesso é marca de eleição (Max Weber), teremos então de propor que o turismo, enquanto dispositivo social do princípio de prazer, espelha essa marca de eleição, apresentando propostas comerciais para uma salvação individual, sugerindo o prazer de passar-o-tempo, um estado de graça diametralmente distinto das horas mortas do otium. O resort turístico, enquanto arquétipo do bem-estar e morada dos bem-aventurados, apela a um idílico estado de natureza simultaneamente perdido e próximo, simultaneamente sofisticado e inacessível. Este modelo de lazer, justificado ora pela salvaguarda dos ecossistemas ora pelo elitismo sumptuoso, encerra em sim mesmo um conjunto de tensões de que o turista é expressão. Simultaneamente imune, alienado, isento e interessado, mas sobretudo feliz, o turista entra em cena, em qualquer lugar do globo, convertendo o mundo num espaço performático. Em Everybody Hates a Tourist – mote à reflexão nesta esfera temática – é o turista que é visitado, na sua jaula aberta, enquanto exemplar vivo da fauna pós-moderna.

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