sábado, 30 de maio de 2009

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Los Chichos - Qué tendrá Marbella

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Common People, Lyrics by Pulp

She came from Greece she had a thirst for knowledge,
she studied sculpture at Saint Martin's College,
that's where I,
caught her eye.
She told me that her Dad was loaded,
I said "In that case I'll have a rum and coca-cola."
She said "Fine."
and in thirty seconds time she said,

"I want to live like common people,
I want to do whatever common people do,
I want to sleep with common people,
I want to sleep with common people,
like you."

Well what else could I do -
I said "I'll see what I can do."
I took her to a supermarket,
I don't know why but I had to start it somewhere,
so it started there.
I said pretend you've got no money,
she just laughed and said,
"Oh you're so funny."
I said "yeah?
Well I can't see anyone else smiling in here.
Are you sure you want to live like common people,
you want to see whatever common people see,
you want to sleep with common people,
you want to sleep with common people,
like me."
But she didn't understand,
she just smiled and held my hand.

Rent a flat above a shop,
cut your hair and get a job.
Smoke some fags and play some pool,
pretend you never went to school.
But still you'll never get it right,
cos when you're laid in bed at night,
watching roaches climb the wall,
if you call your Dad he could stop it all.

You'll never live like common people,
you'll never do what common people do,
you'll never fail like common people,
you'll never watch your life slide out of view,
and dance and drink and screw,
because there's nothing else to do.

Sing along with the common people,
sing along and it might just get you through,
laugh along with the common people,
laugh along even though they're laughing at you,
and the stupid things that you do.
Because you think that poor is cool.

Like a dog lying in a corner,
they'll bite you and never warn you.
Look out.
They'll tear your insides out.

'Cause Everybody hates a tourist,
especially one who thinks
it's all such a laugh.
Yeah, and the chip stains' grease
will come out in the bath.
You will never understand
how it feels to live your life
with no meaning or control
and with nowhere left to go.
You're amazed that they exist
and they burn so bright,
while you can only wonder why.

I want to sleep with common people like you,
I want to sleep with common people like you...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

BREVE MONOGRAFIA DA PRAIA




BREVE MONOGRAFIA DA PRAIA
DO COUTO AO RESORT



“a sua alma nasce de sentimentos que os
reclusos põem neste trabalho que os liberta”[1]


1

De todos os lugares do reino a praia foi sempre o mais desinteressante e também o mais deslocado. Afastado das coordenadas do poder e da jurisprudência, a praia era um espaço hostil, desértico, de condições inóspitas ao cultivo da terra, ao povoamento e exposto ao isolamento precário e ao perigo da pirataria. Esta dimensão marginal da praia (não extensível a toda a costa, uma vez que a actividade portuária das cidades é bem distinta) imposta não pela lei humana mas pela contingência natural, atribui-lhe uma sui generis condição de fronteira que vai do geográfico ao simbólico. Ali a terra acaba abruptamente, umas vezes recortada pelos golfos oceânicos, outras, imergindo no mar em longos declives cujas extensões arenosas são expressão duma mutação de estados: a pedra liquefaz-se e o mar solidifica-se. Tal confusão de elementos é expressão de uma tensão imanente, entre a Ordem e o Caos (no campo mitológico), a lei estabelecida e o inusitado (no âmbito do poder), o sagrado e o profano (na ordem religiosa). Tal condição híbrida conferiu à praia um estatuto fronteiriço totalmente distinto, atendendo que se trata dos confins do domínio humano, as franjas do mundo onde a razão, o conhecimento e a fé vacilam perante a fantasia, o incógnito e o abandono. A austeridade dos elementos e o isolamento associados ao perigo iminente do corso faziam da praia um lugar despovoado e desinteressante, convertendo esse espaço num solarengo vazio propício ao fora-da-lei, ao mouro, ao foragido, sublinhando assim a dimensão promíscua (e até profana) da praia[2]. Foi, portanto, neste contexto psicogeográfico e geopolítico, que foi pensada a necessidade de povoamento e ocupação do território soberano. Esta medida administrativa, oficializada por D. Dinis, foi efectuada através da atribuição de zonas coutadas a determinadas regiões do reino, zonas essas que beneficiavam de imunidade perante os impostos e justiça reais (“escusar os seus moradores da hoste e do fossado, do foro e de toda a peita”). Embora a atribuição do couto fosse uma prática anterior é, todavia, com D. Dinis que se define como ampla estratégia administrativa. As comunidades desempenhavam um papel fundamental na constituição e defesa da fronteira, pois o espaço territorial não estava antecipadamente garantido sendo impreterível assegurá-lo continuamente, envolvendo uma responsabilização do rei e dos súbditos. Os coutos de homiziados surgiram portanto neste preciso enquadramento de uma política de fixação de gente em terras inóspitas, lugares extremos e sinistros, locais expostos e ameaçados . Todavia, nem toda a orla costeira é região coutada, nem os coutos para homiziados estão localizados na praia. A ideia que se pretende aqui sustentar é que a praia, devido às suas características naturais, particularmente a escassez de bens e a exposição hostil ao meio natural, é já por si mesma uma região naturalmente coutada, ou seja, o litoral selvagem é uma zona com condições propícias ao abrigo do fora-da-lei, ao desertor, ao estrangeiro, estando esse sintoma de liberdade na razão inversa do sentimento de insegurança. Porém, a criação do couto de homiziados é paradoxal: como atestar soberania territorial por meio do sujeito desqualificado? Que garantias pode dar o Outro (o marginal, o sujeito desqualificado) de uma efectiva qualificação territorial? “Esses coutos”, escreve Margarida Ventura, “não eram locais de refúgio de criminosos, mas sim um modo de cumprimento da sentença judicial”. Todavia, a autora não está aqui caracterizando positivamente o couto de homiziados, mas distinguindo-o do direito de asilo concedido pela Igreja, que aplicava o casus excepti nem sempre coincidindo com a lei. No século XV as populações queixavam-se da excessiva quantidade de coutos de homiziados e da proliferação de malfeitores, convertendo essas regiões em “covas de ladrões” e, por conseguinte, defendendo a extinção dos coutos situados no interior do reino (“bastavam os coutos antigos porque estavam situados nos ‘lugares do estremo’ e por serem ‘despovoados e de áspero viver’. Convinha que fossem extintos os que se localizavam nas terras povoadas do interior do reino”[3]). A praia parece então reunir as condições adequadas a alojar as hordas de malfeitores. Seria útil, porém, uma história da pirataria portuguesa (paralela à dos Descobrimentos) para compreender devidamente o lugar da praia no âmbito dos coutos de homiziados, bem como de compreender a relação entre a história marítima portuguesa com a vida costeira durante estes séculos. No caso da praia de Vila Nova de Milfontes sabe-se (por intermédio dos estudos levantados por Martins Quaresma) que os ataques mouriscos beneficiavam de um conhecimento detalhado do calendário religioso assim como das personalidades convenientes ao sequestro, cujo resgate era levado a cabo pelos frades da Ordem da Santíssima Trindade, a quem eram entregues, a título de exclusividade, as missões de salvamento com os dinheiros da Fazenda Real, sendo absolutamente proibido aos seculares procederem aos salvamentos, uma vez que “esta intervenção de seculares alterava e inflacionava o preço dos cativos, o que provocava grandes danos no cofre da Rendição dos Cativos”[4]. Não será uma hipótese despropositada supor que os piratas não só sequestrassem os cativos como também recrutassem nestas praias solarengas parte da sua tripulação, que estabelecessem com estas populações certo tipo de relações, que obtivessem deles conhecimentos úteis à navegação, ao saque, etc; do mesmo modo, há que admitir que as zonas coutadas no litoral não se confinavam às fronteiras definidas legalmente mas extravasavam esses limites, e entre dois coutos para homiziados estabeleciam-se assim vastas regiões desgovernadas, campos agrestes e dunares, lugares à margem da lei, extensos territórios votados ao vazio e a uma gente insólita, cujas vidas assumem a dimensão híbrida da praia, os de terra vigiam o mar e os de mar vigiam a terra, gerando um estado de alerta mudo e o sentimento do permanente exílio. A praia conserva esta escassa minoria marginal sob o estatuto de resort, não como lugar destinado a eleitos ao paraíso – como hoje se entenderia o conceito de resort –, mas como uma jaula aberta para os excluídos e mal-aventurados, criaturas da fronteira, aproximando-se assim – no imaginário popular – às representações teratológicas da cartografia da época na qual para lá da muralha da cidade e do mundo conhecido figuravam o ente monstruoso e o real prodigioso.

2

Um vestígio anacrónico desta concepção de resort é o Estabelecimento Prisional Pinheiro da Cruz inaugurado em 1951, com uma extensão de 1500 hectares em pleno litoral alentejano. Sendo o evento do turismo em Portugal um acontecimento tardio relativamente a outros países europeus, e tendo em conta o facto das praias alentejanas (até esta data) serem absolutamente insignificantes no roteiro das praias de Portugal[5], a criação do EP (Estabelecimento Prisional) Pinheiro da Cruz neste lugar seria verosímil não fosse a súbita especulação que a ideia de um litoral inacessível adquiriu perante o desenvolvimento abrupto do turismo de massas e a vulgarização da praia como espaço de lazer desde há duas décadas. Em 1951, a ida à praia, porém, estava longe ainda de descrever uma aventura sensual, inscrevendo-se num itinerário medicinal cujas virtudes se aplicam às “crianças fraquinhas”, às “mulheres débeis, fatigadas” e às “grossas constituições linfáticas”[6]. O contexto terapêutico da ida às termas ou o passeio no campo foi transferido para a prática balnear. Esta prática, implementada sobretudo em Inglaterra, Alemanha e França a partir de meados do século XIX, chega posteriormente a Portugal, mas não ao sul, que teria de esperar pela construção rodoviária e pela tardia rede de transportes terrestres[7]. O contexto da construção do EP Pinheiro da Cruz parece-nos exemplificar um interessante sintoma de desfasamento da planificação e das prioridades administrativas: quando emerge o turismo de massa e a valorização do litoral enquanto palco lúdico do tempo livre, os muros da prisão são aí mesmo erigidos com fim a reabilitar seres humanos para uma vida em sociedade. A prisão não terá sido pensada para que os reclusos usufruíssem aí das qualidades benéficas dos “ares da praia”, mas porque na base conceptual reside uma estranha sintonia (ou insólita naturalidade) com uma velha concepção do que significa uma praia agreste. Este lugar desinteressante parece ser não só adequado a foras-da-lei como também um empreendimento fixador de população, isto é, 700 reclusos e 250 funcionários (portanto 250 famílias). Como tal, a notícia no ano 2000 que o EP Pinheiro da Cruz é um dos melhores estabelecimentos prisionais da Europa é absolutamente anacrónica em relação àquilo que premeia, pois o EP não foi projectado para ser um calabouço de luxo ou um instituto balnear de reabilitação. Uma vez que o turismo é um factor fixador de população, e por conseguinte, de capital, planeou-se desta vez deslocar o EP para um outro local e que, segundo o responsável, “fica próximo da saída da A2 Grândula-Sul […], um dos melhores para receber a nova prisão”. Uma atenção cuidada descobrirá uma subtil e sinistra familiaridade entre a praia das monarquias a auto-estrada do Estado Novo: é que ambas, nos contextos respectivos, representam o não-lugar, o que está deslocado. O turismo veio co-locar ou atribuir um lugar à praia e uma representatividade ontológico, isto é, deixou de estar à margem do mundo e da ordem para ela mesma se tornar um centro, um eixo gravitacional do mundo e da ordem, convertendo-se a auto-estrada numa cinta marginal, deslocada de tudo, “no meio do nada”, percorrendo o vazio intersticial que conduz até aos lugares através das “saídas”. O EP da Pinheiro da Cruz será então deslocado para a saída da A2 Grândula-Sul, e que, de resto, o responsável (Sr. Carlos Beato) “sempre defendeu a deslocalização do EP para o interior do Concelho, considerando-a ‘uma vitória política’” (Agência Lusa). Simultaneamente, nas antigas instalações será construído, segundo o mesmo responsável, um Museu da Liberdade como se fosse o próprio lugar a ser libertado da maldição e a criação do museu coroasse esse ilustre acontecimento em que o tempo-morto dos reclusos se converte em tempo-livre do turista. O Museu da Liberdade estará pois integrado numa frente turística com cerca de 18000 camas 7900 camas residenciais e cerca de 10000 postos de trabalho em todo o concelho. A prisão será então deslocada para a idónea “saída” de Canal Caveira e a Pinheiro da Cruz será libertada do anacronismo a que estava condenada integrando-se na paisagem da “Rede Natura 2000” que se trata de uma rede de áreas destinadas a conservar os habitats e as espécies selvagens raras, ameaçadas ou vulneráveis em toda a União Europeia. Esta preocupação ambiental enquadra-se na urgência de fixação de população, mas desta vez de outras espécies e dos seus respectivos habitats. A percepção massificada de um mundo global modificou a noção de periferia e os lugarejos até então votados ao abandono são redescobertos quase intactos, povoados por exóticas criaturas e em idílica harmonia, suscitando o fascínio por um mundo misterioso e com uma vaga reminiscência do paraíso, de um paraíso que emerge da prisão, do couto para homiziados, da baía de malfeitores nesse “longe extremo de áspero viver”. O turismo assume agora uma dimensão redentor total, isto é, mantendo a sua faceta pedagógica e cultural que o caracterizou desde o inicio (o Grand Tour aristocrático), conservando as suas propriedades medicinais e profiláticas da “mudança de ares” (o “ir a banhos”, as termas, o passeio, o ciclismo, o alpinismo), garantindo a recriação individual através das actividades de lazer (tempo de reencontro consigo mesmo), o turismo pode agora inspirar também a um mítico estado de natureza que, de resto, não é inédito[8]. O turismo explora todas estas facetas, concentrando-as na ideia do resort, exposto no cartaz publicitário no túnel do metro, no catálogo do supermercado da grande cidade ou na berma da auto-estrada.

3

A administração deste planeta parece progredir para um modelo cada vez mais homogéneo, supranacional e solidário, não tanto porque os seus habitantes tenham edificado um projecto universal (no sentido de uma racionalidade kantinana), mas precisamente porque ele falhou, a razão da modernidade estilhaçou-se. Não só a nossa espécie mas todo o planeta vive sob a ameaça da possibilidade de um guerra cuja sofisticação tecnológica permite a extinção imediata. A consciência e acção global desenvolvem-se mais a partir do receio e da desconfiança do que da autêntica vontade de partilhar o planeta e respeito pelos seres que nele habitam. Mas esta afirmação – de que a razão falhou – só é válida no interior de uma perspectiva progressista da história (Hegel). Supondo que sobreviveremos a ameaça de destruição do nosso planeta pela guerra e pela miséria, supondo que serão preservados os ecossistemas existentes, supondo que é estável o funcionamento do sistema económico que conhecemos, então neste clima de fim da história e de paz perpétua ingressaremos numa nova era que, de resto, o ocidente já inaugurou: o turismo infinito. Revisitaremos o paraíso perdido em reservas naturais construídas com a lógica da ilha e do acesso condicionado. Um paraíso recriado a partir da lógica do turismo destinado àqueles cuja marca de eleição é o sucesso e o esforço no mundo infernal dos negócios e do trabalho. O turismo democratiza o paraíso inspirando a ideia de uma ascensão laica a partir de uma hipermoralização do trabalho e de uma sacralização do tempo (“tempo é dinheiro”, ver Max Weber). Assim, o tempo livre deverá ser merecido e bem aproveitado (otium cum dignitate) e este turismo resplandecente composto de palmeiras, águas tropicais e criaturas exóticas é a promessa edénica do homo oeconomicus. A turismologia será então uma religião global e a casa e o escritório altares privados compostos de souvenires e fotografias em função dos quais prestamos culto, depomos testemunhos, retiramos forças e nos inspiramos para o presente entediante. Tudo é turístico, desde a cultura ao sexo, do real ao virtual, do artificial ao autêntico. Como um corpo sem órgãos, eis o turismo assumindo múltiplas e renovadas formas, despontando em rizomas criando ilhas, bolhas, esferas confinadas ao prazer da salvação individual dos fiéis (contribuintes). A peregrinação assume a condição de visita[9] no interior desta Grande Narrativa da pós-modernidade que converterá o mundo em parque temático. Visitaremos índios em reserva, animais exóticos em habitat natural, plantas em jardins botânicos, a infância em parques de diversão, a gastronomia em festivais folclóricos, saúde em spas, a cultura em museus e ruínas, os bens de consumo em mega Centro Comerciais e as nossas almas objecto de visita no ashram resort. O resort inaugura um modelo turístico alicerçado num mundo sem história, cristalizado, e o turista um embaixador da paz e da nova ordem. Nas margens do mundo, estão agora os migrantes ilegais condenados ao submundo e ao trabalho infame, e os desempregados condenados às horas vagas do tempo-morto. Ambos partilham um domínio extra-terrestre, como se não fizessem parte deste mundo, criaturas sem lugar e sem co-locação, infiéis ao turismo. Porventura, será (ou terá sido já) o nosso planeta visitado por outras criaturas provenientes de lugares longínquos, lugares que ignoramos, e eles preservarão o que aqui o encontrarem, segundo os seus critérios turísticos, na mesma lógica de resort e parque temático, considerando este planeta como uma gigante instância de férias ao sul da galáxia.


[imagem: "A Expulsão do Paraíso", mosaico romano da Catedral da Navidade da Santíssima Mãe de Deus (1174-1267), Monreale, Sicília, Itália]

[1]Inscrição no rótulo do vinho produzido no Estabelecimento Prisional Pinheiro da Cruz.

[2]É de referir o excelente trabalho de Martins Quaresma no qual estão descritos não só o modus vivendi das populações costeiras no sul de Portugal entre o século XIV ao século XIX, como também episódios vivos das investidas corsárias, sequestro e negócio em terra.

[3]VENTURA, Margarida, in “Coutos de Homiziados nas Fronteiras com o Direito de Asilo” (http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4024.pdf)

[4]ALBERTO, E., in “Corsários argelinos na costa atlântica – o resgate de cativos de 1618”

[5]Veja-se que Ramalho Ortigão em As Praias de Portugal (1876) acaba o itinerário na praia de Setúbal como se o território subitamente se extinguisse.

[6]ORTIGÃO, R., As Praias de Portugal

[7]Atenda-se, no entanto, ao curioso facto que no século XIX ainda se fazem resgates de cativos de Argel e que só terá termo com tratado de paz Luso-Argelino em 1813 e renegociado em 1825 (sobre as relações diplomáticas entre Portugal e as Regências ver Fernando de Castro BRANDÃO, Portugal e as Regências de Argel, Tunes e Tripoli – Subsídios para a História Diplomática Portuguesa, Porto, Secretaria de Estado da Emigração, 1985.

[8]É precisamente este apelo de um mítico estado de natureza a inspiração da associação turística Die Naturfreund (os Amigos da Natureza), fundada em Viena em 1895, manifestando assim um criticismo em relação à civilização industrial e ao progresso técnico, bem como uma orientação ética relativamente à natureza. A Alemanha e a Áustria desempenham aqui um papel pioneiro na invenção do culto estético do corpo e da fruição dos prazeres sensuais do calor, dos banhos, da nudez e do sol. Aqui o jogo social é suplantado pelo cuidado estético, privilegiando então a praia reservada e o reencontro com a natureza. É precisamente neste contexto que a partir da segunda metade do século XX (sobretudo entre os anos 60 e 80) que o litoral sul surge como espaço idílico, franja esquecida do mundo industrial, onde o alemão, o inglês, o belga, o suíço reconciliam-se com o mundo reconstituindo a identidade a partir de uma comunhão privada com a natureza e o corpo nu. Parece que o conjunto de características que descrevem a praia selvagem como possibilidade do idílico para o espírito naturista no século XX é simultaneamente o mesmo que em 1951 – assim como os séculos precedentes – se aplica à praia para a retratar como um vazio de soberania, um vazio demográfico, um espaço deslocado. Embora o naturismo imponha uma ideologia rígida, conservadora até, como adverte André Rauch, “convidam ao retorno à natureza para promover a virtude contra a decadência […]. Num clima moral que endurece contra os malefícios da cidade e da sociedade industrial, o naturismo torna-se ética de cura e de prevenção. As suas doutrinas, por um lado, a uma ideia de liberdade com laivo de permissividade controlada; contra os males, o naturismo quer-se uma cura mais moral do que física” História dos Tempos Livres, p. 129

[9]Note-se que o estatuto do turista é vigente para um período não superior a três meses, segundo o Código Mundial de Ética do Turismo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tropical Islands, Berlin

http://www.tropical-islands.de/


View Tropical Islands Management gmbh in a larger map

ITB Berlin

Crisis in the Credit System

http://www.crisisinthecreditsystem.org.uk/

Altermodern

Liam Gillick Venice Biennale Lecture at Hamburger Bahnhof, Berlin

segunda-feira, 4 de maio de 2009

The Land Foundation

Chiang Mai, Tailândia:

http://www.thelandfoundation.org/










Troia Resort

Troia

Enquadramento

Em 1838 Stendhal utiliza o termo francês “touriste” para designar o viajante, o protagonista do Grand Tour, em voga na aristocracia da época cuja principal finalidade era ampliar a formação do jovem por via dos prazeres sensuais proporcionados pela viagem. Este rito de passagem revelava ao jovem turista não só a geografia clássica de uma Europa culta como também os confins do mundo com populações insólitas e paisagens fabulosas como testemunhos da origem mitológica do mundo, fomentando a lenda popular, o conto infantil, o diário de viagem. Esse elemento onírico do “exotismo” serviu como contraponto a uma civilização industrializada, no seio da qual ocorreram transformações relevantes tanto na história do trabalho como na história do lazer, termos que, de resto, são indissociáveis. Como tal, as actividades de lazer obedecem a um preceito social que desde logo as distinguiu em práticas enriquecedoras com vista a um progresso pessoal (de que a tour é expressão ritualizada) e as distracções consideradas pouco respeitáveis, como os prazeres efémeros proporcionados, por exemplo, pelo sol e pelo mar. Esse otium cum dignitate, exclusivo às elites, vê-se ameaçado com a emergente massificação do lazer facultada com os caminhos-de-ferro e um sistema laboral que licencia a classe proletária a revigorar forças com a “mudança de ares”. Este enquadramento terapêutico do tempo-livre e a vulgarização da viagem (em particular o caminho de ferro) conduz à invenção e popularização da praia, primeiro como instância medicinal em moda e posteriormente como lugar de recreio, proporcionando um lazer sensual, erotizado, transformando o banhista e o viajante numa criatura lúdica e turística, agora preocupado com a construção e encenação duma identidade proporcionada por essa liberdade licenciosa durante o tempo livre, sobretudo, as férias. “Lazer” (do latim licere, ser lícito, permitido) é já por si expressão de uma legitimação condigna do farniente, positivando o tempo morto em tempo livre, ao contrário do otium, que assume a expressão da condenação ao tédio, ao peso das horas, ao tempo-morto. A liberdade licenciosa de outrora, vinculada aos calendários rural e religioso, é redefinida em função de um mundo industrializado. Deslocada para o Verão, esta liberdade licenciosa, assume uma condição edénica, em que o trabalhador se reencontra com o seu corpo, se torna dono do tempo, regressa aos lugares de identidade (a aldeia, a casa de campo, a família, a mãe-natureza, os monumentos fundadores), tudo isso escrupulosamente ritualizado com a partida da viagem, encenando o abandono físico deste mundo para um outro que tem a função simbólica do paraíso esquecido. As utopias sociais – sonho racional da modernidade – revelam uma aspiração colectiva à vida boa, evocando imagens de um estado de graça na terra, que rapidamente se vê pervertida pelos anátemas do progresso. A mecanização do trabalho e a invenção do subúrbio industrial, por exemplo, resultam numa imagem paródica e simultaneamente tenebrosa desse sonho original do paraíso, paraíso esse que a nova ordem desloca para as esferas do tempo livre e das férias e, por conseguinte, para uma emergente indústria do turismo. Se pelo trabalho e pela vocação o homem encontra a possibilidade de se definir moralmente, através de um esforço ascético no interior da sociedade, na vida laica, onde o sucesso é marca de eleição (Max Weber), teremos então de propor que o turismo, enquanto dispositivo social do princípio de prazer, espelha essa marca de eleição, apresentando propostas comerciais para uma salvação individual, sugerindo o prazer de passar-o-tempo, um estado de graça diametralmente distinto das horas mortas do otium. O resort turístico, enquanto arquétipo do bem-estar e morada dos bem-aventurados, apela a um idílico estado de natureza simultaneamente perdido e próximo, simultaneamente sofisticado e inacessível. Este modelo de lazer, justificado ora pela salvaguarda dos ecossistemas ora pelo elitismo sumptuoso, encerra em sim mesmo um conjunto de tensões de que o turista é expressão. Simultaneamente imune, alienado, isento e interessado, mas sobretudo feliz, o turista entra em cena, em qualquer lugar do globo, convertendo o mundo num espaço performático. Em Everybody Hates a Tourist – mote à reflexão nesta esfera temática – é o turista que é visitado, na sua jaula aberta, enquanto exemplar vivo da fauna pós-moderna.

Quinta do Rabaçal

Introdução

Propomos a Quinta do Rabaçal enquanto modelo experimental do conceito de “deslocação”, isto é, não apenas no sentido banal da viagem e da experiência turística enquanto itinerário dos topoi (topos = lugar), visita de lugares, mas simultaneamente observar no conceito proposto a sua formulação mais estridente e que sugere o desenraizamento, a hibridez cultural e o fluxo, noções que de resto se deixam capturar pelo que a pós-modernidade designa de desterritorialização. Contudo, se este termo serve à geografia, às ciências sociais e políticas, e à antropologia, não é por si mesmo evidente que sirva à turismologia, quando uma das questões estruturais é questionar se o autêntico território do turismo moderno não será precisamente um lugar por essência desterritorializado, condição essa atribuída tanto pelo grau de encenação dos topoi (parque temático como exemplo máximo) como pelo típico alheamento do turista em cena. Parece-nos pois que o conceito de “deslocação” adequa-se-nos por duas razões: desvia-se de um escrutínio terminológico desnecessário no âmbito deste trabalho e, por outro lado, apela a uma dialéctica estrutural inerente ao turismo: o topos turístico é uma evocação humana do paraíso, do que entre nós não tem lugar, a u-topia. Portanto, a deslocação é também e sobretudo o topos, o território próprio, de experiências sem lugar. Pensar a Quinta do Rabaçal como um lugar deslocado é precisamente desafiar a compreensão da experiência turística a partir do seu centro do conceito de local e não local (topia e u-topia), mas também territorializar o turismo, livrar o turista do mau-olhado. Eis o que aqui se propõe.